Família: um dos pilares na formação dos tenistas infanto-juvenis

Como psicóloga, costumo dizer sempre, seja no âmbito da clínica ou do esporte, que, quando trabalhamos com crianças e adolescentes, temos uma infinidade de possibilidades a explorar, de pontos a serem cuidados. Isto tem uma razão: estamos lidando com pessoas em um período de pleno desenvolvimento, dentro e fora das quadras.

Ao longo de nossa formação como indivíduos, desenvolvemos crenças sobre quem somos, visões de mundo e estratégias para lidarmos com as mais diversas situações. Estas crenças emergem da nossa educação familiar e escolar, bem como das nossas vivências nos contextos de que fazemos parte ao longo do nosso crescimento, incluindo as experiências esportivas.

A família, com certeza, é um dos grandes pilares da vida da criança e do adolescente. Foram e são modelos, provedores não apenas das condições socioeconômicas, mas principalmente da educação “emocional”, sendo, em um sentido mais amplo, o esteio para a vida toda. Dentro das quadras isso se torna muito claro no desempenho dos atletas.

No texto anterior, falei que o esporte expõe o jogador e reforço esta afirmação quando me refiro à importância da família na sua vida, considerando que é neste meio que forma sua identidade também enquanto atleta. Reações dentro de quadra, dificuldade em lidar com a derrota ou o erro, as pressões internas e externas que sente e suas motivações estão, muitas vezes, ligadas diretamente à relação tenista/família e seu histórico.

Se prestarem atenção nos detalhes de uma cena típica de um treino ou um jogo, perceberão que os filhos, na presença dos pais, frequentemente buscam os seus olhares. Por vezes, tentam encontrar uma motivação para seguir; noutras procuram verificar a reação dos pais após um erro seu. Portanto, é inegável sua forte relação. A seguir, abordarei alguns pontos importantes deste vínculo no desempenho esportivo dos tenistas dentro e fora das quadras.

1) Alinhamento de expectativas

Em muitas oportunidades, vemos pais projetando em seus filhos seus próprios desejos e sonhos, que não correspondem aos ideais destes indivíduos em formação. A que isso leva? A uma pressão enorme na vida da criança ou do adolescente, que tenta corresponder às expectativas dos pais dentro e fora de quadra, gerando transtornos que extrapolam os limites da área de jogo para a vida cotidiana. Claro que, por mais esforçados que sejam, os filhos jamais corresponderão a tais expectativas e é justamente nestes momentos que, muitas vezes, acabam abandonando o esporte.

Assim, é preciso que os pais estejam atentos ao que seus filhos almejam e aonde querem chegar. Torna-se fundamental reverem, enquanto pais, se estão sendo esteio para que os filhos façam suas escolhas e cumpram suas metas ou se estão gerando uma pressão desnecessária a partir de seus próprios desejos. Pais abertos para este reconhecimento contínuo das emoções tendem a alavancar o desempenho dos filhos não apenas dentro da quadra.

É fundamental ter cuidado para que o investimento financeiro e de tempo que os pais fazem nos filhos não se transforme em pressão para obterem resultados em termos de placar, pois, na verdade, o que realmente importa é que se trata de um investimento de vida, de aprendizagem global. Não apenas o tênis, mas qualquer esporte, ensina muito — ensina a ganhar e a perder, a ser ético, a tomar decisões, a se autoconhecer, a reconhecer e desafiar seus limites, a ser assertivo nas relações e tantas outras coisas. Enfim, ensina a se colocar no mundo.

Como psicóloga na área esportiva, afirmo que rever e trabalhar esta questão de forma adequada com o tenista e a família gera segurança, foco no seu desenvolvimento dentro de quadra, minimizando a pressão até mesmo durante os jogos aos quais os pais assistem. Esta é a ideia de ser o esteio para qualquer adversidade que o atleta possa enfrentar.

2) Entender a fase em que seu filho está

Outro ponto que gostaria de ressaltar é que precisamos atentar para não antecipar questões que não condizem com a fase de desenvolvimento em que a criança ou o adolescente se encontra. Uma criança que se destaca no desempenho esportivo, do ponto de vista de resultados, nem sempre tem a maturidade emocional para compreender o que ocorre. É bastante comum vermos pais cobrando reações que a criança ainda não está preparada emocionalmente para ter.

Proporcionar situações que desafiam os filhos pode ser bom, mas é preciso ter cuidado com o ponto certo, com o limite do que é possível para cada criança, considerando sua personalidade e seu momento. Costumo dizer que a diferença entre o veneno e o remédio é a dose. Então, nada como conhecer o funcionamento, a realidade, os pensamentos e os sentimentos dos filhos para acertar a medida. O erro, muitas vezes, está na relação distante do que os pais imaginam e do que os filhos realmente sentem. E este equívoco se dá, muitas vezes, pela falta de diálogo adequado. Melhorando este ponto é possível estimular a autoconfiança, auxiliar a lidarem com os desafios dentro de quadra e a compreenderem as lições de vida que o esporte proporciona.

3) Sintonia entre as partes envolvidas

Por fim, não poderia deixar de mencionar o quanto é importante haver sintonia entre pais, tenistas e a equipe técnica. Esta tríade precisa ser retroalimentada constantemente. Cada um deve ter sua função bem definida e isto precisa valer na prática. Entretanto, é preciso que andem juntos para que se estabeleça um cenário favorável para o bom desempenho dentro e fora das quadras. Qualquer modificação nesta tríade é sentida de forma geral e pode criar barreiras no andamento do trabalho.

Não resta dúvidas do quanto a família é significativa na vida dos tenistas infanto-juvenis. Este pilar precisa ser conservado e revisto a todo momento, para acompanhar as mudanças intensas que o esporte proporciona. É e sempre será um grande e importante investimento não apenas no esporte, mas na formação do ser humano que atua não apenas dentro dos limites das quadras.

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