Quanto tempo é necessário investir no treinamento de jovens tenistas?

A introdução dos novos jogadores ao mundo do tênis tem sido amplamente facilitada nos últimos tempos. A utilização dos materiais pedagógicos adequados, juntamente com as metodologias que favorecem um imediato encantamento por meio do descobrimento do jogo, fazem com que os novos adeptos dessa cultura tenística passem a ganhar corpo, passando a não apenas a projetar um desejo fugaz, mas também a ter aspirações mais elevadas no cenário do tênis mais elaborado.

Desta forma, alguns questionamentos começam a surgir, como, por exemplo:

– Quais são os conteúdos primordiais que devem ser dominados em cada etapa do desenvolvimento de um jogador?

– Quais são as tarefas complementares (habilidades e capacidades) que estes tenistas devem desenvolver ao longo do processo?

– E qual é o volume de treinamento necessário para concretizar uma proposta de ensino mais ambiciosa (ensino universitário, carreira profissional, ser um excelente jogador)?

 

1. As mazelas de não configurar adequadamente o volume do treinamento

Existem dois problemas principais que podem ocorrer quando a definição do volume de treinamento não está bem ajustada quanto à faixa etária, à maturação e ao nível dos jogadores.

O primeiro é que treinar em demasia pode provocar consequências nocivas como o sobretreinamento (overtraining), que é uma forte ruptura com a cultura infantil. Essa especialização precoce transforma o esporte em trabalho enfadonho, e acaba levando a uma sequência de problemas recorrentes como lesões sucessivas, baixa motivação, irritabilidade, pouca tolerância a adversidades e desculpas a respeito do desempenho. São indicadores de que uma síndrome de sobretreinamento possivelmente está se instalando. A segunda falha no ajuste do volume é o justamente o contraponto ao aspecto anterior, e advém de um importante princípio do treinamento: a intensidade da carga. Jogadores que treinam pouco não atingem todo o potencial que poderiam, limitando a qualidade do jogo a um aspecto recreativo. Desta forma, não existe uma significativa mobilização, principalmente dos componentes neurais, onde circuitos específicos de aprendizagem são acionados toda vez que o indivíduo pratica deliberadamente uma atividade.

Quanto mais um sujeito treinar determinada habilidade, mais rápidos, precisos e intensos se tornam os sinais elétricos, e isso se manifesta na qualidade das ações desempenhadas. Sendo assim, qual é a justa medida para que exista uma correta relação entre esforço e descanso, respeitando as características físicas e psicológicas dos jovens jogadores?

2. As referências mundiais a respeito do volume de treinamento para jogadores de 7 a 10 anos

Algumas das principais federações de tênis do mundo propõem diretrizes para estruturar o planejamento a longo prazo dos jogadores de tênis, com base nos conhecimentos da ciência e da pedagogia do esporte.

Apresentamos um quadro geral sobre o que é relevante em termos de volume de treinamento para estas instituições, e ao final, proporemos um elemento reflexivo para os problemas da realidade brasileira.

Um dos apontamentos sobre o tênis sub-10 (jogadores de até 10 anos de idade) é que esta é primeira fase da formação dos jogadores. Por isso, é necessário compreender as características inerentes a este público para não realizar cópias irrefletidas do treinamento de alto rendimento.

As atividades físicas destacadas são jogos esportivos e diversas atividades corporais que auxiliarão no desenvolvimento harmonioso das múltiplas competências motoras que os jogadores necessitam desenvolver. Portanto, não devemos pensar exclusivamente no tempo investido na quadra, mas sim oportunizar a variabilidade no tênis sub-10. A participação em outros esportes também é extremamente válida e necessária para a diversificação de um rico aparato de movimentos e habilidades.

As competições até os 10 anos de idade sofrem várias modificações com relação ao tamanho da quadra, tipo de bola e pontuação. Também é recomendado por várias federações que o início da jornada competitiva seja feito através de festivais onde seja possível jogar mais partidas, jogar por equipe e em um formato não eliminatório. Isso mais uma vez ocorre para adaptar as estruturas do jogo ao jovem jogador em formação.

3. O problema da incongruência: jogar bem treinando pouco é possível?

Estudos relacionados ao domínio de competências em alta performance indicam que são necessárias 10.000 horas de treinamento para ser considerado um expert. Logo, a obstinação, os métodos de ensino, o planejamento e equipes interdisciplinares são extremamente necessários para obter um grau de expertise que seja considerado acima da média.

Esta problemática no cenário do tênis é recorrente, assim como em outras modalidades esportivas. É necessário “pedagogizar” inicialmente a família para compreender que jogar bem tênis é um processo evolutivo de investimento de tempo. Conforme os anos passam, mais tempo o jogador deve ficar na quadra, a fim de dominar as competências essenciais do jogo.

O jogo de tênis é uma atividade complexa, que exige uma incrível plasticidade cerebral (reorganização adaptativa frente aos novos estímulos proporcionados), e para ampliar este potencial de aprendizagem é necessário estabelecer constantes conexões com ensinamentos prévios. Esta somatória de estímulos progressivos frente aos sucessos e insucessos de uma tarefa leva ao domínio de um conceito ou habilidade. A ponte entre dominar ou não uma habilidade está imbuída na quantidade de repetições significativas (o jogador está motivado? A tarefa é adequada? Existe compreensão do que esta sendo desenvolvido por parte do jogador?) às quais o indivíduo foi submetido.

Na proposta pedagógica do Tênis+, o volume mínimo para as crianças de 7 anos iniciarem no tênis é de 2 horas semanais. Observamos os volumes de treinamento de algumas das principais federações de tênis do mundo e notamos uma semelhança no desenvolvimento da proposta. À medida em que as crianças vão desenvolvendo maturidade física e psicológica, é imperativa a ampliação do volume de treinamento.

Isso porque o jogo de tênis não é um jogo virtual estilo “Plug and Play”: é necessário vivenciar a maior quantidade de situações possíveis, jogar contra diversos tipos de adversários, repetir bastante para fortalecer o que foi inicialmente instaurado. E assim, ajudar a guiar o processo de aprendizagem das crianças para que estas se tornem mais inteligentes e hábeis de corpo inteiro, e não apenas praticantes que apenas passaram pela escola de tênis, colecionando apenas mais uma de muitas modalidades nas quais não desenvolveram um potencial minimamente maduro de habilidade.

Referências

International Tennis Federation. Manual de Treinadores. In: Miley D. Crespo.M. (Orgs). London: International Tennis Federation, 1998.

USTA.The Progressive development of a higher player. www.playerdevelopment.usta.com

Tennis Canada. Long Term Development Plan. https://www.tenniscanada.com/misc/LTADallenglish.pdf

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