Desenvolvendo o controle emocional no tênis

Hoje abordarei um tema fundamental para o bom desempenho dos tenistas em quadra: o controle emocional. Ao observarmos um jogo, é bastante comum nos depararmos com algumas situações que ilustram a presença ou falta desta característica tão importante. Engana-se quem pensa que a falta de controle emocional adequado está apenas em cenas de raquetes “voando” na parede ou quebradas no chão, ou de tenistas que apresentam uma postura recorrente de reclamações e xingamentos contra o adversário e o juiz, por exemplo.

A falta do controle emocional nos jogos também ocorre de modo silencioso e, muitas vezes, nem sequer é percebida pelo próprio tenista ou pelo expectador do jogo. As atitudes como as de atletas com um diálogo interno depreciativo, uma série de duplas faltas ou apresentando em sua performance o “braço preso” – com consequentes erros de movimentos -, além de erros táticos que não costumam ocorrer em seus treinos, também são ações que demonstram que não está havendo um bom controle emocional.

O manejo das emoções

É fundamental ressaltar que a falta deste controle emocional adequado dentro de quadra não quer dizer que o tenista seja “desajustado mentalmente”, mas sim apenas o fato de, como qualquer ser humano comum, não conseguir manejar adequadamente suas emoções, gerando barreiras para seu bom desempenho esportivo. Raiva, medo, alegria, frustração, vergonha, tristeza e nervosismo, dentre tantas outras emoções, são naturais de todos os seres humanos, dentro e fora de suas ações esportivas. Entretanto, é justamente o reconhecimento e manejo destas emoções de modo saudável que é capaz de definir jogos, não apenas quando as capacidades físicas e técnicas entre dois adversários se equivalem, mas também em casos em que há notável diferença entre eles.

Considerando que mente e corpo são indissociáveis e emoções negativas e positivas possuem um grande impacto sobre as ações do corpo, é preciso que estejam em um ponto certo, em equilíbrio. Por exemplo, emoções negativas, como uma “ansiedade além do limite”, geram um aumento dos batimentos cardíacos, uma diminuição do campo de visão e reações corporais que travam os movimentos de um atleta, não permitindo sua fluidez. Além disso, os níveis de concentração e atenção caem, visto que o foco se desloca daquilo que se está fazendo, dando lugar a uma mistura de pensamentos e levando o tenista a se desorganizar momentaneamente. O grande problema é que, muitas vezes, o tenista nem se dá conta deste processo e acaba por não conseguir retomar o foco no jogo.

Citei o termo “ansiedade além do limite” porque a ansiedade, desde que na dose correta, é algo que faz parte do jogo e é necessária ao tenista, já que permite a sua ativação e proatividade em sua performance. Na mente de um atleta, como na de qualquer pessoa,  repousam pressões internas e externas acerca de seu bom desempenho, situações de vida, sentimentos, preocupações, suas interpretações sobre o “ganhar” e “perder”, frustrações, medos, motivações e expectativas. O sucesso em quadra e o adequado manejo de todas estas emoções passam por uma capacidade de se autoconhecer, da sua autopercepção.

Torna-se de extrema importância o tenista se dar conta de como é o seu funcionamento, quem ele é, como joga, quais seus pontos fortes e pontos vulneráveis, como pode retomar sua concentração, baixar sua ansiedade… Treinar esta parte é tão importante quanto treinar as habilidades técnicas e táticas, além de preparar-se fisicamente. O autoconhecimento deve ser trabalhado diariamente, a cada treino, para que o tenista consiga perceber suas emoções e manejá-las adequadamente nos momentos dos jogos também. Para tanto, abordo a seguir, alguns pontos importantes no trabalho de controle mental dos atletas de tênis.

Algumas estratégias de desenvolvimento do controle emocional no tênis

  • Conheça e trabalhe seus pontos fortes dentro de quadra;
  • Identifique os pontos vulneráveis e trabalhe com seu “staff” para saná-los e revertê-los;
  • Exercite sua confiança em sua performance. Reconheça suas necessidades e as trabalhe com sua equipe (treinador, psicólogo esportivo, fisioterapeuta e preparador físico);
  • Não se prenda aos erros do jogo. Desenvolva sua resiliência. Ponto jogado e jogos anteriores devem ficar para trás;
  • Trabalhe a atenção e a concentração para colocá-las em prática no jogo. Treine como retomá-las em momentos necessários nos jogos;
  • Desenvolva uma atitude positiva dentro de quadra. Não há jogo perdido ou ganho sem entrar em quadra e jogar ponto a ponto, do primeiro ao último game;
  • Reconheça a ansiedade e trabalhe com sua equipe as estratégias para lidar com ela. Uma estratégia recomendada, por exemplo, é a regulação por meio de exercícios de respiração. Treine diariamente e incorpore em sua prática;
  • Evite um diálogo interno depreciativo. Procure desenvolver um diálogo interno positivo. Para isso, é necessário o desenvolvimento da autoconfiança;
  • Aprenda a conviver com as pressões internas e externas. Você é o tenista e está dentro de quadra. Ninguém está no seu lugar, faça apenas o que está em seu controle. Para aprender a manejar as pressões psicológicas, é preciso rever suas crenças sobre si mesmo, dentro e fora das quadras, e trabalhar as mudanças necessárias em sua preparação psicológica.

Enfim, um tenista só poderá desenvolver o controle emocional a partir de seu processo de olhar para si mesmo. Não existe receita pronta, tendo em vista que cada ser humano é único. É preciso que cada um se responsabilize pela sua caminhada e se torne proativo em busca da melhoria de sua performance. Ninguém jogará pelo tenista, por mais que se tenha a equipe de auxílio, o bom desempenho dependerá de cada um.

A família e a equipe são fundamentais no auxílio deste processo, fornecendo recursos e suporte para que o atleta se autodesenvolva em sua trajetória. Desta forma, precisam estar alinhados e coesos para tornar este processo mais saudável e harmonioso.

Tênis é um esporte em que a parte mental é imprescindível para o bom desempenho. O que me faz vibrar? Como me concentro melhor e quais as melhores estratégias de retomada do meu foco? O que me atrapalha? Onde estou errando? Como posso ganhar este jogo? Do que sou capaz? Estas são perguntas que terão respostas muito diferentes entre os tenistas, ainda que pertencendo a mesma equipe ou a mesma família. Porém, é justamente isso que diferencia adversários. O trabalho de se autoconhecer certamente indicará os caminhos para que cada um desenvolva seu controle emocional e, por consequência, seja o diferencial nas disputas dentro das quadras.

Até a próxima!

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