Competências emocionais trabalhadas na prática do tênis: resiliência

Inicio minha reflexão sobre este tema supondo duas situações:

Cena 1 – Imagine um tenista em quadra disputando uma partida contra um adversário com quem já jogou anteriormente (e perdeu duas vezes). No jogo atual ele já perdeu o primeiro set por 4 x 6. Como ele entrará para o segundo set? O que passa por sua cabeça? “Vou perder novamente!”, “Muito difícil ganhar deste adversário!” ou“Este jogo eu vou virar!”.

Cena 2 – Pense em um tenista crescendo em sua trajetória e sua posição no ranking está subindo a cada torneio. Ele vem treinando forte e é extremamente comprometido com sua ação. Eis que, no meio desta evolução, ele sofre uma lesão e precisa se afastar por seis meses. Que pensamentos invadem sua mente? “Isso é injusto, logo agora que estava tendo bons resultados”, “Não conseguirei ter a mesma performance”, “Minha carreira já era!” ou“Vamos lá, farei o que for preciso e o possível para me recuperar de modo mais breve!”.

Ainda que haja peculiaridades de cada indivíduo e de cada situação, podemos inferir a competência emocional da RESILIÊNCIA, que, a meu ver, é uma das características mais importantes para obter sucesso na ação esportiva. Não me refiro apenas ao sucesso em termos de resultados, mas, de forma mais ampla, à realização de uma ação esportiva plena, geradora de saúde física e mental e bem-estar.

Afinal, o que é ser resiliente?

Resiliência é um termo próprio da Física, e se refere à capacidade de um material retomar a condição anterior após ser submetido a algum tipo de alteração. A Psicologia pegou emprestado este termo, e passou a utilizá-lo para descrever a capacidade ou habilidade do ser humano de reconduzir sua vida após o enfrentamento de adversidades.

No esporte, ser resiliente se torna extremamente necessário, tanto ao atleta dentro de quadra como fora dela. Em termos práticos, fora de quadra a resiliência é fundamental para um tenista após uma lesão, por exemplo, enfrentar de forma confiante e com empenho o tratamento durante o período de recuperação, agindo ativamente em busca de seu objetivo. Já dentro de quadra, é necessária para que o jogador consiga manter a calma, o foco e a crença de que tudo é possível quando entra no jogo, e também para manter em mente que cada disputa é um combate diferente, atuando, assim, de modo proativo, almejando seu bom desempenho. Além disso, a resiliência faz a diferença na hora de lidar com as situações de pressão psicológica, de estresse gerado pela busca da boa performance em treinos e competições e também com sensações físicas que interferem na qualidade do jogo, como as dores, o cansaço e a temperatura, entre outras.

Assim, esta competência mental interfere diretamente nas ações de nosso corpo, e, como mente e corpo não se separam, é preciso trabalhar isso em nossos tenistas em sua totalidade, como seres humanos biopsicossociais, como já escrevi em textos anteriores. Fisicamente, cada indivíduo tem uma composição e um tempo para recompor a sua musculatura, e isso precisa ser respeitado pela tríade atleta/equipe técnica/pais. É necessário avançar os limites sempre de acordo com as capacidades do atleta, ultrapassando-os de modo responsável, consciente e consistente para alcançar o crescimento planejado.

Desenvolvendo esta competência emocional no tênis

Resiliência não é inata, ela pode ser perfeitamente aprendida e desenvolvida ao longo das vivências de cada atleta. Sermos ou não resilientes no esporte tem muito a ver com o que somos na vida, pois o esporte é apenas um exemplo das nossas atitudes.

O modo como lidamos com os erros cometidos – na vida ou no jogo -, a forma como enxergamos os desafios, as vitórias e as derrotas, bem como a maneira com a qual enfrentamos situações estressantes, nos levam a agir de modo resiliente ou não, gerando, por sua vez, consequências em nossas ações futuras.

Esta aprendizagem ocorre desde a infância, mas a qualquer momento pode ser trabalhada, desde que o tenista (adolescente ou adulto) reflita sobre seu modo de pensar e perceba a necessidade de investir no desenvolvimento desta competência. Por isso, o treinamento do atleta precisa ser amplo e bem coeso na equipe interdisciplinar.

No texto que escrevi anteriormente sobre a importância da vivência nos torneios na formação dos tenistas, reforcei o quanto as crianças e os adolescentes precisam passar por estas experiências para crescer no esporte. E hoje reforço, pois viver isto é um excelente exercício para desenvolver a resiliência.

Muitas vezes, alguns torneios são evitados, por se acreditar que o jogador ainda “não está preparado” e que a competição só serviria para estressar o tenista, atrapalhando o seu desenvolvimento. Porém, é preciso rever esta forma de pensar e perceber que é justamente esta uma grande oportunidade para o tenista se autoconhecer e exercitar a resiliência. A frustração que pode ser vivida em um torneio é extremamente saudável, e fundamental para que se avance no treinamento, para que se aprimore técnica, tática e mentalmente. Tudo depende de como isso será trabalhado. Se proporcionarmos esta experiência com compreensão, calma e tranquilidade, o tenista também tem uma grande chance de entender desta forma.

Desenvolver esta competência é um exercício. Digo sempre que pouquíssimas coisas na vida não possuem solução (se é que existe alguma), e tudo depende apenas de percepção e de interpretação. É necessário entender que aquilo que pensamos não ter solução, na verdade, possui outro caminho. O que devemos trabalhar é nossa forma de enxergar e absorver as situações, e perceber que há outras possibilidades e necessitamos estar abertos a elas. A resiliência passa por aí. Desenvolver esta competência no esporte é aprender a lidar com os erros, com a dor, com o cansaço, com as derrotas, com as pressões e com as frustrações, fazendo disso algo construtivo e mais leve para se atingir os objetivos.

Perdemos um jogo importante?… bem, este não é o fim do mundo, mas se ficarmos “presos” a este jogo criaremos muitas barreiras, minimizando as chances de progredir. Se formos resilientes, conseguiremos trabalhar as lembranças ruins da derrota e usá-las como combustível para seguir em frente, aprender e aprimorar treinos. Como psicóloga e atuando na área esportiva, digo: isto é POSSÍVEL!

É preciso uma mudança cognitiva, uma transformação na forma de pensar. Não adianta apenas mudar o comportamento. Precisamos entender, enquanto atletas, que somos responsáveis pelas nossas ações e pela nossa visão de mundo. E, assim, seguimos adiante sendo agentes da nossa própria vida e superamos nossos próprios obstáculos.

Fácil? Não, mas é preciso. Para desenvolver esta competência tão relevante no exercício do tênis, é importante investir na reflexão sobre como cada atleta funciona, sempre focando no equilíbrio entre a cobrança e a liberdade. Quando se perde este equilíbrio, se perde também a fluidez nas ações, nos movimentos dentro e fora de quadra, no jogo bonito, no jogo solto. Enfim, se perde a leveza, tão fundamental em nossa ação esportiva e na vida.

Até a próxima!

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