Aprendiz de mãe de tenista

Há tempos tenho lutado contra o incômodo de ver meu filho nervoso, xingando, chorando e com atitudes que desaprovo em diferentes situações dentro da quadra.

Eis que sábado fui assisti-lo em mais um torneio da federação paulista. Na verdade, todo esse incômodo havia me afastado das quadras e dos jogos do João. Acompanhava de longe e sempre perguntava, já me preocupando, sobre a sua reação diante da derrota.

Mas sábado eu estava lá. Com toda a minha ansiedade e desejo de ver meu filho vencer.

João entrou em quadra às 11:38, após ter vencido o seu primeiro jogo naquele torneio mais cedo.

E entrou para ganhar! Vi um João seguro, maduro, soltando o braço e jogando um tênis que eu desconhecia até então. “Caraca! Esse é o meu filho!” Pensei com o peito estufado de orgulho.

Ouvia os comentários da plateia e o tal orgulho só inflava.

Quando eu já não cabia mais em mim (e sim, já achava ter vencido!), o João se joga em uma bola e cai, ralando as costas.

Ele havia ganhado o primeiro set de 0 e seguia com 2 x 0 no segundo.

Mas a partir daí o João saiu do jogo.

Colocava as mãos nas costas, reclamava de dor, fazia caretas e olhava para mim. Eu tentava passar um olhar confiante: “Vamos, filho! Volta para o jogo!”

Ele não me escutava.

Pediu auxílio médico e vi ali a minha chance: “João, ergue a cabeça. Está tudo bem. Volte pro jogo.”

Com calma ele me diz: “Ok, mãe!”

Foi lá e tentou. Jogou com menos paciência, trabalhou menos os pontos — e perdeu!

Eu, do lado de fora da quadra, já estava indignada… Sabe, o João tem o histórico de grandes viradas, ressurgindo das cinzas. A todo momento, meus olhos acompanhavam a bolinha, de um lado para o outro, e o placar, ponto a ponto do tie break para ver a grande virada do João e novamente estufar o meu peito com um “eu sabia!”… E nada!

Ele cumprimentou o adversário, sentou, organizou as suas coisas, respirou fundo e veio em minha direção.

Sem nenhum choro, sem piti. Saiu da quadra como um verdadeiro tenista.

Na fração de segundos em que ele cruzava a quadra caminhando em minha direção, me dei conta de como ele havia crescido. Meu filho evoluiu na quadra e, acima de tudo, na vida!

Tá, beleza. Tudo muito lindo, mas eu continuava indignada.

Me diz como ele pode ter perdido aquele jogo? O MEU filho? Aquele que entrou na quadra para vencer e estava ganhando de 2 x 0… Me diz?

Não aguentei e disse a ele: “João, mais uma vez você perdeu a cabeça.”

E, com toda a tranquilidade do mundo (nada característico do até então conhecido João), ele me diz: “Eu não perdi a cabeça, mãe. O meu adversário que mereceu.”

Ali me dei conta do vão de distância entre nós dois: ele, muito à minha frente.

Em nenhum momento eu vi mérito no outro menino, que não se desesperou, que fez o jogo dele mesmo perdendo, que foi inteligente para mudar a estratégia e para aproveitar as oportunidades, que parou de errar e que, consequentemente, ganhou. Ele merecia!

Mereceu mais que o João.

E que exercício esse de não ter mais indignação, de não ter mais desculpa para a derrota, de não ter ego, e só ter… tênis! Bem jogado e com respeito, como deve ser.

E, nesse dia, vi nascer o meu filho tenista. Aquele com quem eu sonhava, e que muitas vezes gritei e pedi para ele ser.

Mas mais do que isso, vi que, no auge dos seus 12 anos, ele vem em constante evolução como atleta e como pessoa. Mas e eu, que então me vi não estar à altura do meu filho e que agora preciso me descobrir mãe de tenista?!

Por enquanto, escolho dar mais um tempo longe das quadras. Acompanhando toda essa evolução de longe. Para voltar pronta, para ser a mãe que ele merece, olhos atentos, ali do outro lado!

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