9 coisas que meus adversários me ensinaram

O tênis já faz parte da minha vida há 28 anos. Desde então pude vivenciar uma quantidade incalculável de jogos, primeiro como jogador e hoje como professor, técnico e treinador — então, pode me classificar como quiser: me considero uma mistura de todos esses títulos. Estou há 16 anos na França; há 11 atuo como professor de tênis e, ao longo dessa trajetória, tenho cada vez mais a certeza de que nunca paramos de aprender; ao menos é a minha impressão. Como adoro o que faço! Acredito que minha evolução só foi possível pois encontrei muitos adversários.

A partida, oficial ou amistosa, é para mim o melhor meio de avaliar o progresso dos jogadores — e, graças à metodologia francesa, qualquer pessoa é capaz de jogar uma partida desde a primeira aula. Nesses eventos podemos medir uma evolução tanto técnica e tática quanto física e psicológica, o que é muito proveitoso, pois acredito que todos esses quesitos estão ligados entre si.

Pensando nisso, gostaria de fazer algumas perguntas para você que é tenista, e tenho a convicção de que você entenderá o que estou tentando dizer:

  1. Quem nunca enfrentou aquele jogador que devolve todas as bolas e que só “dá balão”?1

  1. Quem não jogou contra aquele adversário que diz que a bola foi fora, mas você viu nitidamente que foi dentro?

  1. Tem também aquele que vem sempre duvidar da bola que você acabou de dizer que foi fora. “Tem certeza??? Eu vi dentro…”

  1. E aquele que diz um enorme “VAMOS” quando você erra? Eu já vi jogador ganhando por 6/1 5/0 e continuar gritando “VAMOS” como se cada ponto valesse a vida!

  1. Ah! Também tem aquele cujos golpes são “feios” e a bola só chega com um efeito esquisito, e você nunca entende o quique da bola.

  1. A situação contrária também existe. Você se aquece e seu adversário tem uma excelente técnica. Quando o jogo começa ele não consegue botar a bola dentro.

  1. E nunca aconteceu de você jogar contra um jogador mais forte? Ok, você perde, mas no final você pensa “Uau, que delícia. Consegui jogar solto!” Mas também já aconteceu o contrário. Quer dizer, eu me coloquei tanta pressão que acabei não aproveitando as oportunidades.

  1. Claro que não esqueci dos pais e das mães. Você que já acompanhou seus filhos em torneios talvez tenha encontrado um pai que gosta de se meter no jogo. Aquele que fica querendo dar conselho o tempo todo. Já vi pais de adversários dizendo que a bola entrou todas as vezes. Mesmo você dizendo que ela foi fora.

  1. Também já joguei muito com adversários que, de tão irritados, acabam dizendo vários palavrões, jogando a raquete na grade e coisas assim. Aí você acha que a partida já está ganha, mas o mesmo jogador que você achava que ia entregar o jogo volta superssolto e disputa cada ponto com unhas e dentes.

1 Rebater bolas altas e com segurança. Jogo defensivo e com poucos riscos.

 

Pois é, todas essas situações podem ser vistas como desconfortáveis, irritantes ou constrangedoras. Porém, se olharmos de forma mais calma e positiva, são inúmeras as oportunidades nas quais podemos progredir na quadra ou fora dela:

  1. Com aquele que só “dá balão”, eu aprendi que tinha que melhorar meu jogo de ataque. Sem precipitação, fazer a escolha certa na hora certa.

  1. Com aquele que duvidava da minha arbitragem, eu aprendi a me afirmar na quadra.

  1. Da mesma maneira, com aquele que acho que está me roubando pontos aprendi a me impor em quadra. Sem violência, mas assertivo.

  1. Com aquele que grita “VAMOS” o tempo todo, me dei conta de que muitas vezes ele está até mais nervoso do que eu. O que me exige ainda mais concentração.

  1. O tenista que joga com efeitos esquisitos me ensinou que eu tenho que estar atento até o último instante antes de golpear a bola.

  1. Aquele que tem uma excelente técnica no aquecimento me mostrou que não preciso me impressionar antes de o jogo começar, mas esperar para entender qual é a realidade daquela partida e então traçar minhas estratégias.

  1. O jogador mais forte mostrou que eu ainda não havia atingido meu limite e que, quando jogo contra alguém do meu nível, crio expectativas. Da mesma forma, vi que os jogadores mais fortes também têm falhas e que devemos explorá-las.

  1. Observando o comportamento dos pais fora da quadra pude me dar conta de como eles estão envolvidos emocionalmente com os resultados dos jogos, e como isso interfere na partida do próprio filho. Aprendi com eles que, no meu trabalho como educador, preciso exigir de mim ainda mais qualidade na comunicação. O que me leva a ser mais claro também na relação com os pais.

  1. Aquele jogador que parece abandonar o jogo de tão irritado, mas acaba jogando solto, me mostrou como é difícil não ser influenciado pela atitude do adversário. É uma dura tarefa ficar dentro da sua própria “bolha” de concentração.

Mas no final de cada partida sempre teve um denominador comum: eu fui apertar a mão do meu adversário. Hoje posso agradecer a todos esses oponentes pela oportunidade que me deram de jogar uma partida de tênis. Pois foram eles, antes de mais nada, que me permitiram jogar.

 

Posted in Psicologia no esporte, Sobre o Tênis.

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